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Presidente do Supremo Tribunal de Justiça preside à apresentação do livro 'José da Silva Carvalho e a Revolução Liberal de 1820 – Atas dos Colóquios"

Presidente do Supremo Tribunal de Justiça preside à apresentação do livro 'José da Silva Carvalho e a Revolução Liberal de 1820 – Atas dos Colóquios"

24 jan '23
Município

A Casa da Cultura de Santa Comba Dão recebeu no passado domingo, 22 de janeiro, a apresentação do livro 'José da Silva Carvalho e a Revolução Liberal de 1820 – Atas dos Colóquios'. A presidir a sessão esteve Henrique Araújo, o presidente do Supremo Tribunal de Justiça, que classificou a sua presença na cerimónia como “um modestíssimo tributo a uma personagem de multifacetados talentos e virtudes”.

José da Silva Carvalho, santacombadense, nascido em Vila Dianteira em 1782, foi um dos membros fundadores do Sinédrio, um dos obreiros da revolução liberal de 1820, ministro de D. João VI, D. Pedro IV, D. Maria II, bem como o primeiro Presidente do Supremo Tribunal de Justiça.

Entre 2018 e 2020, o Município prestou homenagem a esta figura ímpar na nossa história, porém pouco conhecida, não apenas no concelho, como no próprio país. Através de um conjunto de conferências e de outras iniciativas comemorativas foi aprofundado o conhecimento e lançadas sementes para o estudo da influência de Silva Carvalho no Portugal moderno.

A obra agora editada corresponde a um registo documentado dessas comemorações, que evocaram o Bicentenário da Revolução Liberal de 1820, homenageando José da Silva Carvalho, num documento absolutamente histórico, que reúne os registos das conferências, os programas e respetivas atas.

Resultante do contributo de vários participantes, o livro foi coordenado por António Neves numa tarefa ampla e minuciosa, que surgiu quase como um prolongamento do que havia sido a sua função de coordenador das comemorações promovidas entre 2018 e 2020.

A edição da obra é do Município de Santa Comba Dão e das Edições Esgotadas, em colaboração com a Associação de Estudos do Baixo Dão.

 

A sessão de apresentação

O início da sessão de apresentação deste livro de referência foi marcado pela tema 'Nostalgia' de Rossano Galante, interpretado pela Filarmónica de Santa Comba Dão. Seguiu-se a constituição da mesa de honra, integrada por Henrique Araújo, presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Leonel Gouveia, presidente da Câmara, Nuno de Siqueira, trineto de Silva Carvalho e representante dos seus descendentes, e por António Neves, coordenador do livro.

Leonel Gouveia – presidente da Câmara

Coube a Leonel Gouveia abrir o período dedicado às intervenções, referindo ter sido, precisamente, há cinco anos, no dia 22 de janeiro de 2018, que iniciaram as comemorações do bicentenário da revolução liberal numa sessão em que foi evocada a criação do Sinédrio, organização secreta que daria origem à revolução liberal de 1820.

 

O representante máximo da autarquia aludiu à excelência de todo o programa comemorativo, promovido entre 2018 e 2020, reportando às “comunicações valiosíssimas” proferidas por “prestigiados professores universitários e investigadores, como Ana Cristina Araújo, Maria João Mogarro, José Luís Cardoso, Luís Nunes Espinha da Silveira, Luís Bigotte Chorão, José Adelino Maltez, António Ventura, Dr. Nuno de Siqueira e 'o homem do leme', a pessoa a quem se deve isto tudo, o Dr. António Neves”.

De acordo com o autarca, estas conferências e outras iniciativas integradas na agenda comemorativa, foram decisivas para aprofundar o conhecimento sobre uma personalidade importantíssima, mas ainda pouco estudada e pouco conhecida. Uma situação que se pretende colmatar com a recente criação da bolsa de investigação “José da Silva Carvalho” , aprovada na passada reunião de Câmara de 10 de janeiro, por proposta do vereador da Cultura, Agostinho Marques. Leonel Gouveia explicou que este instrumento de apoio se traduz na atribuição de subsídios a trabalhos de investigação, associados à obtenção de graus e diplomas do ensino superior, que incidam no todo ou em grande parte, no estudo da vida e obra do estadista nascido em Vila Dianteira.

 

António Neves – coordenador do livro

Também António Neves - no estilo apaixonado que caracteriza a sua dedicação ao estudo de Silva Carvalho - deu a conhecer a origem e contexto da edição deste livro, abordando os diferentes capítulos que o compõem e a sua importância para o conhecimento histórico. Além da biografia geral de José da Silva Carvalho, onde são balizadas as principais fases da sua vida pessoal e política, a obra é composta pelas comunicações dos historiadores convidados, “especialistas na época e no assunto específico em que Silva Carvalho participou na governação”. Por fim, surge o relato das comemorações, promovidas entre 2018 e 2020, tendo António Neves expressado publicamente os parabéns ao presidente da Câmara e vereador da Cultura, Agostinho Marques, “pelo trabalho realizado e pela forma como receberam os ilustres visitantes”.

Como se de um roteiro se tratasse, o coordenador da obra associou as diferentes comunicações dos colóquios aos períodos e facetas do percurso de Silva Carvalho, o “lutador pela liberdade, a quem devemos o regime constitucional e o facto de sermos iguais perante a lei”. Os diversos cargos que assumiu, os sacrifícios e os exílios suportados, os ansiados reencontros com a família e até algumas peripécias cómicas foram passados em revista por António Neves, que enalteceu toda uma vida dedicada à causa pública e guiada pelos ideais liberais.

À pergunta “por que devemos continuar a estudar e a divulgar Silva Carvalho?”, António Neves responde: “Pela personalidade em si! Pelo que lhe devemos! E porque sendo uma das personalidades mais importantes da história de Portugal, ainda (…) precisa de ser mais estudada e conhecida”. Mais, ainda pela importância da valorização do património, neste caso o património humano, enquanto fator de diferenciação positiva. 

 

É, neste contexto, relevante apontar que António Neves, nas suas investigações e estudo sobre as origens familiares de Silva Carvalho, encontrou informações, presentes na obra agora editada, que deitam por terra a convicção de que o estadista seria filho de "humildes lavradores", tal como apontado por várias fontes. De acordo com o estudo realizado, o governante era filho de um antigo presidente da Câmara do extinto concelho de São João de Areias, que  foi, ainda, capitão de ordenanças. Também  o avô materno, formado pela Universidade de Coimbra, havia, de igual modo, ocupado o cargo de presidente da Câmara de São João de Areias. 

 

Nuno de Siqueira – trineto de Silva Carvalho

Numa intervenção mais centrada nos valores que regeram a vida do estadista, Nuno de Siqueira, trineto do Silva Carvalho recordou o antepassado e a ligação dos descendentes à casa de granito de Vila Dianteira, onde a família ainda passa férias de verão - um fim mais “pacífico” para um edifício “que outrora serviu de covil de revolucionários”.

De Silva Carvalho, Nuno Siqueira destacou vários aspetos do caráter, como a coragem que sempre caracterizou o seu percurso, nomeadamente quando formou uma organização secreta para preparar, num contexto particularmente difícil, uma revolução que mudaria o país. O descendente recordou também o facto de Silva Carvalho não se ter acomodado a uma vida estável, quando foi colocado como juiz dos órfãos no Porto, para lutar pelos ideais em que acreditava e a particular intransigência do estadista quando estavam em causa os valores que abraçava.

O facto de Silva Carvalho ter recusado todas as honrarias, declinando títulos propostos por reis e nobres, foi outro dos exemplos de ética e caráter apresentados pelo trineto.

Tudo isto faz com que nós descendentes de Silva Carvalho guardemos uma grata memória desse nosso antepassado”, disse, concluindo com um agradecimento ao Município e a António Neves pelo “trabalho fantástico” levado a cabo nos últimos anos, no âmbito da comemoração da revolução liberal e de homenagem a Silva Carvalho.

 

Henrique Araújo – presidente do Supremo Tribunal de Justiça

A última intervenção da cerimónia coube a Henrique Araújo, presidente do Supremo Tribunal de Justiça, que enalteceu as múltiplas facetas de Silva Carvalho: defensor da liberdade, impulsionador e protagonista da revolução liberal de 1820”, “homem de ideias e (…) ação, num período muito crítico e agitado da nossa história”.

 

Henrique Araújo recordou que a presidência de Silva Carvalho do Supremo Tribunal de Justiça foi, desde logo, marcada por um claro sinal de aproximação da Justiça à sociedade e aos cidadãos, quando “a 23 de setembro de 1833, as instalações localizadas em pleno Terreiro do Paço abriram as portas pela primeira vez (…) à população, que foi convidada a assistir ao primeiro ato solene: a investidura e posse daqueles que iriam pôr a funcionar o Supremo”.

 

O agora presidente do Supremo Tribunal de Justiça reforça que o edifício continua a ser o mesmo. “A sala Silva Carvalho, adjacente aos Passos Perdidos e com janelas lançadas para o Terreiro do Paço e para o rio Tejo, continua a ser a preferida de todos os juízes conselheiros para a realização de sessões onde se decidem os recursos: pela história que carrega, pela luminosidade que adentra o espaço e pela possibilidade de contemplação da beleza exterior”. Afinal, destaca, “três aspetos que identificam simbolicamente outras tantas características de Silva Carvalho: a importância institucional, o brilho das ideias e a luta pelo bem social”.

 

Henrique Araújo – que também pautou a sua intervenção pelo elogio a Silva Carvalho enquanto exemplo de ética e caráter - deixou um convite a todos os santacombadenses para visitarem o Supremo Tribunal de Justiça na semana de 17 a 23 de setembro, aquando da celebração do 190.º aniversário deste órgão. Esta, afirmou, será mais “uma ocasião para recordar a eminente figura de Silva Carvalho, seu primeiro presidente”.

 

'Em memória de José da Silva Carvalho Salvator Mundi'

A obra do compositor santacombadense Nuno Figueiredo, 'Em memória de José da Silva Carvalho Salvator Mundi' encomendada pelo Município, e interpretada pela Filarmónica de Santa Comba Dão, marcou o final desta apresentação, em que estiveram ainda presentes a vice-presidente, Catarina Costa, vereadores, membros da Assembleia Municipal, presidentes de Junta, entre outros convidados e público em geral.

 

Fotos: Município, Gerrit kulik e Vítor Corveira