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Couto do Mosteiro

Situado a cerca de três quilómetros da cidade de Santa Comba Dão,   Couto do Mosteiro  é uma terra rica em beleza natural e  património edificado, que se orgulha da sua história antiga, com um passado de autonomia municipal e  ambiente fidalgo.

Foi sede de concelho (extinto no séc. XIX) e,  também, sede de uma  freguesia agregada  aquando da reorganização administrativa de 2012/2013, sob a designação  União de Freguesias de Santa Comba Dão e Couto do Mosteiro.

Além do  Couto do Mosteiro, as localidades de Pesseguido, Portela, Colmeosa, Vila de Barba, Casal de Maria, Pedraires, Gestosa, Pregoinho, Casal de Vidona, Outeiro e Regato Serra integram o território desta antiga freguesia.


Enquadramento
"Um documento datado do século XII revela que o Couto do Mosteiro seria um povoado fortificado, da Idade do Ferro e que, na época medieval, era utilizado como reduto defensivo". Do  período luso-romano, séc. II-IV, há registo  as lagaretas, pequenos lagares de vinho e azeite, que nos séculos XII e XIII tinham ainda uso.

Sabe-se que foi "D. Afonso III que, em 1255, instituiu o Couto e o doou aos bispos de Coimbra". O pelourinho e o edifício onde funcionaram a câmara, o tribunal e a cadeia atestam este passado"

D. Manuel concedeu-lhe carta de foral a 12 de setembro do ano de 1514, passando a constituir um concelho que permaneceu até 1836.

Em 1527, Couto do Mosteiro aparece no Cadastro da Beira com 192 moradores.

"Em 1826 era ainda concelho da Beira e comarca de Arganil, pertencendo, igualmente, a esta divisão eleitoral Provedoria de Viseu e Diocese de Coimbra, sendo seu donatário o bispo desta cidade. Era constituído por três freguesias com 491 fogos: Mosteiro com 257, São Joaninho com 171 3 Vimieiro com 73. Em 1832 passou para a comarca de Tondela. Três anos mais tarde, fazia parte do julgado de São João de Areias e, no ano de 1842, era freguesia de Santa Comba Dão e pertencente ao distrito de Viseu.

No centro do povoado, existe um edifício antigo onde funcionou a Câmara Municipal e o Tribunal, e mais tarde serviu de Escola Primária.  Na parede, do lado direito da porta de entrada, existe um brasão com o escudo de armas de Portugal, do tipo pombalino, encimado pela coroa real e que possui a inscrição "a.n.o.d. – e. 1773".

Perto deste edifício,  encontra-se o pelourinho quinhentista, de pinha tronco-cónica, de coluna de fuste torso de concepção tardia, baseado no modelo do pelourinho velho de Santa Comba Dão. Terá sido construído na sequência da carta de foral manuelina.

Encimado por um capitel do tipo “pinha” cónica, assenta em base quadrangular com dois degraus à vista. Presume-se que este pelourinho tivesse mais um degrau em granito.

A Igreja Matriz, edificada em 1150 e reconstruída em 1661, é hoje um edifício de grande beleza e simplicidade, com tetos abobadados, que apresentam pintura de temática religiosa de algum valor artístico.  Há uma referência  antiga, segundo a qual a igreja de Couto do Mosteiro (dedicada a Santa Columba, orago pouco frequente no nosso país) teria sido levantada no sítio onde existiu um convento da Ordem dos Templários (nãp confirmada.

A igreja  teve uma primeira recontrução em 1661, sendo que na segunda metade do século XVIII terá sido reconstruída  a fachada principal, a torre e os cunhais.

É um edifício barroco. Tem fachada principal a terminar em empena e torre sineira adossada do lado esquerdo. No interior, destacam-se os tetos abobadados com pinturas quinhentistas e o altar-mor em talha dourada.

Do  património histórico e arquitetónico  destaque, ainda, para a capela de São Brás e para o solar dos Costas  no Couto do Mosteiro, para as capelas da Colmeosa, Vila de Barba, Pregoinho, Gestosa e Casal Maria, entre outras. Uma nota  também para o cruzeiro da Pedrosa (junto ao cruzamento da Gestosa), para o  miradouro  da Colmeosa, e para marco geodésico na Portela, entre tantos outros pontos de interesse.
 


Algumas curiosidades e factos

O Solar dos Costas
O Solar dos Costas é uma casa nobre rural de granito localizada no lugar de Couto do Mosteiro.
É composta por rés-do-chão, primeiro, segundo-andar e sótão. Foi mandada construir em 1766 por Luís Gomes Pires, que em 1767 obteve alvará de Cavaleiro, de Profissão e, finalmente a Carta de Hábito de Cavaleiro da Ordem de Cristo, como consta da Chancelaria da Ordem de Cristo do Arquivo Nacional da Torre do Tombo.
Em 1768, atingiu o posto de Coronel de Cavalaria e recebeu a Carta de Monteiro-Mor de Santa Comba Dão, ambos concedidos por D. José I (Luísa Arruda, “Azulejaria Barroca Portuguesa”).

O fidalgo confrontou-se com a igreja para fazer aprovar um passadiço que liga a casa à capela da povoação, onde fez obras de beneficiação e um coreto para assistir, como grande senhor, à missa.
Sobre a porta da entrada da capela existe uma inscrição gravada numa lápide que diz o seguinte:
Esta Capela do Senhor Jesus do Couto mandou fazer Luís Gomes Pires, natural deste Couto do Mosteiro à sua custa no ano de 1766

À entrada do Solar, que possui um brasão, existe uma “figura de convite” – um soldado romano, indicando o sentido da escadaria no interior da casa e que se pensa ter sido encomendada a um pintor de azulejos de Coimbra – Sousa Carvalho (natural de Lisboa mas ativo em Coimbra na segunda metade do século XVIII).
Praticamente todas as divisões do primeiro e segundo andar, bem como a escadaria principal são decoradas com azulejos onde predomina a cor azul.

Nalgumas dependências há painéis reproduzindo cenas de caça e pesca e “figuras de cortesia” (homens a tocar e a dançar) que representam trajes e costumes da época (séc. XVIII).

Na capela também se encontram azulejos semelhantes aos da casa, representando cenas/acontecimentos ligados à igreja (o sermão de Stº António aos peixes, o presépio, a morte e a paixão de cristo e a sua ressurreição).

No primeiro andar há 12 varandas em ferro, no estilo pombalino e no segundo andar há 13 janelas com “conversadeiras”. No exterior da casa existe um relógio de sol, formado por uma grande pedra retangular com uma cimalha trabalhada e um ponteiro em ferro. As horas estão gravadas em numeração romana, a sombra do ponteiro incidindo sobre os números romanos é que indica a hora solar.

A casa é um imóvel classificado, com uma zona de proteção (Diário da República – I Série – B, nº 197 de 26-08-1994), Diz-se que o rés-do-chão da casa serviu de cadeia na altura em que o Couto do Mosteiro foi vila.


 
Cabeço da Forca
Em 1810, na terceira invasão francesa, o general Massena entra com as suas tropas pela Beira, conquista Almeida e marcha em direção ao litoral. Seguindo a margem direita do rio Mondego, os franceses fizeram o percurso Mangualde, Nelas, Carregal do Sal, Parada, S. João de Areias, Vimieiro, passando ao lado de Santa Comba Dão, continuando a estrada real por Couto do Mosteiro, Colmeosa, Rio Criz, Pala, Trezói, e Vale da Mó. No dia 19 de setembro, ao passarem por Couto do Mosteiro, sofrem uma emboscada. A população, aliada às milícias portuguesas consegue infligir várias baixas nas tropas francesas, o que as faz retaliar no dia seguinte. Apanhando alguns populares nas redondezas, enforcam-nos no lugar que ainda hoje é referenciado por “Cabeço da Forca” (zona mais elevada da povoação da Portela - local onde se encontra o marco geodésico).

Festa de Santa Cruz
 A igreja matriz de Couto do Mosteiro e a de Vimieiro, partilham costumes curiosos e remotos no tempo. As pessoas da freguesia do Couto participam na festa da Santa Cruz, realizada no primeiro domingo de maio, no Vimieiro. Esta festa ou romaria tem a sua origem em ritos pagãos campestres que o Cristianismo adotou como a bênção dos campos, realizando-se, precisamente em maio -  tempo de floração e prenúncio de boas colheitas.  

“A Cruz-mãe do Couto do Mosteiro é “beijada” pela Cruz-filha do Vimieiro.
A vila e paróquia de Santa Columba ter-se-á formado no século IX e abrangia o território actual das freguesias do Couto do Mosteiro e de Santa Comba Dão.
No século XII, 1102, surge dentro deste território o lugar de Santa Comba do Burgo/Dão onde existiria uma capela dedicada a Santa Maria.
Em 1109, o bispo de Coimbra, Gonçalo Pais, torna-se senhor do território de Santa Columba (que incluía Santa Comba Dão) e ainda lhe anexa o Vimieiro. A paróquia de Santa Columba com sede no Couto do Mosteiro, nesta altura, abrangia todas estas terras e tinha na sua dependência as capelas de Santa Maria e de Santa Cruz.
No século XIII, Santa Comba Dão torna-se um concelho e paróquia independente. No século XV/XVI é a vez da paróquia de Santa Cruz se tornar independente da paróquia-mãe de Santa Columba/Couto do Mosteiro.
A Festa da Santa Cruz junta hoje as cruzes da paróquia-mãe e das duas paróquias-filhas da antiga paróquia medieval de Santa Columba do tempo do bispo D. Gonçalo Pais”.
(Texto de António Neves – Associação de Estudos do Baixo Dão)


Lenda da Cruz da Pedrosa
 Há muitos anos, um rico comerciante ia a passar a cavalo na Estrada Real, no local que se chama hoje Cruz da Pedrosa. Repentinamente, o comerciante começou a sentir forças estranhas. O cavalo ficou muito assustado e começou a relinchar, a saltar com violência e a endireitar-se nas patas traseiras atirando o comerciante ao chão.
O cavaleiro tentou acalmar o animal e montá-lo, mas foi em vão, porque o cavalo ficava cada vez mais assustado.
Sem saber o que fazer e pressentindo que estava a ser tentado pelo Diabo, virou-se para a capelinha que se via daquele lugar e disse:
"- Valha-me aqui a Santa Capeluda!"
Imediatamente deixou de sentir as forças, e antes de seguir viagem prometeu:
"- Prometo erigir neste lugar um cruzeiro de granito e dar, anualmente, à capela 60 alqueires de trigo e um cento de esteios de pinheiro para feijões."
Esta promessa foi, rigorosamente, cumprida durante muitos anos.
Esse lugar ainda é hoje pela Cruz da Pedrosa, porque o dito homem se chamava Pedrosa.

 
Fonte: Ferreira, Francisco Santa Comba Dão - Uma Monografia (2015). Município de Santa Comba Dão